philosophie naïve du devenir humain

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A humanidade está destinada a atingir a sua perfeição

Da inconsciência a consciência

FaggianiSe há mais de um século, as grandes perguntas metafísicas parecem ter abandonado as preocupações da nossa época, não desapareceram no entanto do espírito humano.

Quando a vida nos afasta em certas alturas da efervescência do mundo, as questões fundamentais ganham logo vivacidade de novo.

O universo faz algum sentido?
A humanidade tem algum propósito?
Porquê que estou no mundo?
A nossa existência e os nossos actos fazem sentido?
Há algo de divino no mundo?
Haverá outra coisa depois da morte?

O mercado pode muito bem camuflar essas interrogações espirituais por baixo dum amplo véu de barulho, de stress e de impulsividade, de trabalho forçado e sem descanso, mas essas perguntas ressurgem logo nos nossos momentos de relaxamento e nos nossos silêncios.

O mundo faz algum sentido?

Quando vemos televisão e a sucessão de medos que ela emite, podemos facilmente ficar com uma visão sombria e pessimista da evolução humana. É fácil imaginar a nossa espécie em declínio e destinada ao seu próprio aniquilamento.

Pelo contrário, também podemos achar nela uma EVOLUÇÃO POSITIVA. Um melhoramento constante e global da condição do homem. Uma passagem sucessiva, etapa após etapa, conduzindo a nossa espécie em direcção a sua UNIÃO SERENA e a sua verdadeira perfeição.

 

Não é a humanidade que está cada vez pior, é a nossa                  

sensibilidade ao mal que se desenvolve …

 

Este é o ponto de vista que vamos defender e desenvolver aqui.

philosophie

Falar sobre a evolução positiva nesta altura de transições é um assunto complicado. Ainda mais depois das monstruosidades humanas testemunhadas pelo século XX.
É difícil, porque temos de ser capazes de pensar no “mal” como algo reprovável, como um escândalo que deve desaparecer, ao mesmo tempo que temos de justificar a necessidade da sua existência. Se queremos livrar-nos deste beco sem saída, temos de considerar o “mal” como um elemento subsidiário e em constante recuo, cujo único papel é o de fazer evoluir o “bem”.
Também temos de aceitar o paradoxo dum mal que acharíamos necessário à construção humana e ao mesmo tempo supérfluo, para que ele regrida progressivamente até desaparecer por completo.
Vejamos o caso da tortura por exemplo. Trata-se de uma barbaridade antiga que ainda hoje tem praticantes. A televisão e os relatórios da Amnistia Internacional são muito expressivos sobre este assunto. 
E para demonstrar o progresso da humanidade apesar de ainda existir tortura, temos de poder dizer:

  • 1/ A humanidade ainda não atingiu o limiar da sua perfeição mas é a direcção para onde se dirige pouco a pouco.
  • 2/ Durante milénios, a tortura consistiu sistematicamente o único meio de obter confissões ou de sentir prazer. Era uma prática institucionalizada e vulgar. 
  • 3/ Gradualmente, seguindo a evolução da consciência, esse “horror” foi reavaliado. Filósofos, humanistas e religiosos lutaram para que desaparecesse. Graças a esse longo trabalho de humanização, a tortura acabou por ser proibida. Primeiro pela Suécia em 1734, depois pela Alemanha, a Noruega e a Dinamarca e finalmente pela França em 1789.
  • 4/ Hoje, a maior parte dos países proibiu a sua prática.
  • 5/ A desumanidade da tortura foi entendida pela sociedade por ser o único grande comportamento desumano que foi explicitado nos documentos oficiais internacionais (apesar de alguns carrascos de fatinho procurarem qualquer forma de lhe devolver um contexto legal ou de lhe minimizar a importância).
  • 6/ Nos dias de hoje, a tortura ainda existe, porém é proibida. Praticá-la ou permitir que seja praticada são atitudes punidas pela lei. Por isso, há evolução.
  • 7/ Dia após dia, inúmeros seres humanos trabalham para que essa perversão sádica desapareça.
  • 8/ E, para concluir, a tortura tendo-se afastado dos hábitos humanos, a sua prática age contra ela própria. Com efeito, quando felizmente há indivíduos que denunciam a sua presença, gera-se logo um autêntico escândalo a nível da opinião mundial que obriga os dominadores a justificar-se, a pedir perdão.

Assim, mesmo se a tortura ainda existe no século XXI, mostrando o nosso grau real de evolução, e mesmo se algumas democracias contornam as leis para praticá-la, a sua regressão progressiva não pode ser contestada.
E isso é valido para todas as áreas onde é questão da evolução da humanidade.

Ambiguidade do mercado

 

Outro obstáculo impede-nos de conceber claramente o avanço da humanidade para o “bem”.
Trata-se da regressão moral, social, humana e espiritual destes últimos 30 anos.
Essa regressão é palpável apesar de ser ocasional. Só afecta uma parte da evolução. A humanidade, na sua globalidade, continua a progredir.
Como a maior parte dos indivíduos, as estruturas humanas procuram nas “outras estruturas” os limites da sua expansão.
Esmagando qualquer forma de contra-poderes, o liberalismo caiu de encontro ás hegemonias.
Considera-se todo-poderoso, e o seu orgulho também aumenta os riscos de autocracia.
Corrompendo gradualmente certos princípios, impondo os “valores” dos dominantes (egoísmo, agressividade, capitalização, narcisismo) o esmagador liberal não provoca outra coisa senão o recuo da democracia, que exige, pelo contrario, de escolher os valores do povo (entreajuda, humildade, partilha, entendimento) como exemplos a seguir.

  • Quando um sistema privilegia os dominantes, como na natureza, regride cada vez mais para as condições de vida das nossas origens, ou seja as dos primatas naturais. Assim, como na natureza, a precariedade, a agressividade, a violência, a sexualidade sem sentimentos, o medo, a inconsciência, etc. expandem-se desde cerca de trinta anos.

Se esse regresso do espiritual para a animalidade parece evidente, na verdade apenas acontece pontual e parcialmente.
Essa regressão está pendente duma evolução mais importante: a globalização.

A globalização é uma passagem obrigatória da humanidade, é responsável pela ascensão do nacional para o universal.
 
A regressão de alguns valores humanos é devida à subida em força dos valores mercantis.
A dominação dos valores mercantis é a consequência do facto da globalização estar ao serviço do mercado. 
Esse facto está totalmente de acordo com a evolução da humanidade.
De facto, para que um Latino-americano, um Chinês, um Russo, um Japonês, um Africano, um Europeu, um Americano, um Oriental, etc. se possam reunir sobre interesses comuns, os valores mercantis tinham de ser neutros e transnacionais.
Nenhuma religião e nenhuma ideologia seriam capazes de reunir o mundo à través de um sistema único e conveniente a todos.
Apenas os objectos, a moda, a música, o cinema, o turismo, a industria, ou seja tudo aquilo que o mercado oferece, é que é capaz, hoje, de reunir a humanidade. Apenas o mercado pode abrir caminho para um funcionamento mundial e universal e aceitar fazer evoluir as suas praticas nacionais e comunitárias no sentido de novas leis universais.

A globalização pelo mercado, não é então outra coisa senão um dos instrumentos para a paz universal que vai aparecer. Resumindo, a globalização está a preparar a fusão das ideologias e das espiritualidades, ao centro duma quintessência comum e universal.

No entanto, esse domínio da globalização pelo sistema mercantil começa a ser um verdadeiro problema para os seres humanos.
Esse domínio tem um preço: o mercantilismo sistemático de todas as áreas da sociedade, incluindo a área humana e a sua espiritualidade.

  • Quando o mercado domina a área espiritual, desvia naturalmente o homem da reflexão e da espiritualidade (visto não terem nenhum valor mercantil). Inundado o corpo e a alma humana de noções materiais, o mercado reduz o homem ao simples estado de consumidor e de mercadoria.
  • Quando o mercado domina a área militar, transforma a arma num artigo de consumo e espalha-a por todo o planeta com as consequências que já conhecemos. Também pode influenciar guerras para a sua própria expansão.
  • Quando o mercado domina a ecologia, a sua impulsividade impede-o de prevenir em vez de remediar. Daí, o mercado ser então capaz de injectar a tempo dinheiro suficiente para a pesquisa sobre energias limpas, obrigando constantemente a humanidade a reparar os seus estragos.
  • Quando o mercado domina a politica, usa-a para alcançar ainda mais áreas da sociedade. É por isso que os mídias ficaram dependentes dele, com todas as aberrações que nisso vemos. Hoje, o mercado aponta para a área da educação, a prisão, a investigação, a medicina, etc.
  • Quando o mercado está acima da educação, orienta pouco a pouco o ensino para as únicas disciplinas utilitárias e mercantis – conceber, fabricar e vender – em detrimento das disciplinas intelectuais, artísticas e espirituais. Se precisa de mão-de-obra, não hesita em repor em causa certos direitos a escolarização para ficar com jovens operários mais dóceis. Por outro lado, quando o mercante está acima do educacional, permite-se infiltrar as escolas para vender os seus produtos e as suas publicidades.
  • Quando o mercado domina a cultura, reduz rapidamente a diversidade e a qualidade dela para diminuir os custos de produção e aumentar os seus benefícios. Nos mídias de massa, apenas alguns artistas escolhidos compõem a área cultural, encolhendo o espaço intelectual do povo, a sua consciência e espírito crítico.
  • Quando o mercado domina os mídias, estraga progressivamente a missão do jornalismo. Transforma-o num simples meio de propaganda e de publicidade. A televisão e a imprensa passam a ser apenas uma montra de produtos para comprar. O mercado traveste os jornalistas e os apresentadores em comerciais uniformizados e “benfeitores”. Aniquila pouco a pouco os debates de cidadãos, as emissões culturais, as emissões críticas e a visão verdadeira do mundo.
  • Quando o mercado domina a justiça, já não receia enganar os seus empregados. Negligencia os valores socialmente adquiridos para aumentar os seus benefícios pagando cada vez menos empregados que devem trabalhar cada vez mais. O seu estatuto de todo-poderoso leva-o a fazer regressar a humanidade ao ponto da escravatura. 

Finalmente, quando o mercado está acima do povo, em vez de querer o seu bem procura a sua impulsividade e a sua dependência. Não tem descanso, para vender sempre mais mercadoria, para estimular a dependência, as fraquezas, as tendências, e as perversões. VOYEURSIMO, ATRACÇÃO PELA JOGO, VENALIDADE, CONSUMO EXCESSIVO, NARCISIMO, ELITISMO, etc., ocupam pouco a pouco todo o espaço do espírito.
Este problema permanecerá até que o mercado fique totalmente sob controlo e reencontre o seu lugar legítimo dentro da humanidade, ou seja: o último lugar na influência da humanidade. 
O mercado tem de ser subordinado aos conceitos espirituais, ecológicos, políticos, educacionais, culturais, mediáticos, e ao povo.

Perceberam que este trabalho vai seguir dois objectivos muito distintos:
- Por um lado, vamos reflectir sobre a evolução global e espiritual da humanidade para a sua perfeição…
- Por outro lado, vamos analisar as imperfeições da sociedade para abrir as nossas consciências e conseguirmos corrigir-nos.

Quais são os verdadeiros valores que estão na nossa espécie? Qual é o sentido e a finalidade da nossa evolução? Eis algumas das perguntas que hoje é fundamental colocar-nos.

 

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